O IATE
O fotógrafo mal conseguia encontrar espaço entre tantas pessoas no cais. Os convites para aquela viagem haviam se esgotado em poucas horas. Era o evento mais comentado da temporada: um iate de luxo faria uma travessia exclusiva, reunindo empresários, médicos, artistas, autoridades e convidados escolhidos entre pessoas comuns. Estar ali era motivo de orgulho.
O comandante era um piloto experiente, conhecido pela calma e pela precisão com que conduzia suas embarcações. Aquele iate era novo, equipado com sistemas modernos e considerado extremamente seguro. Assim que todos embarcaram, ele conferiu os instrumentos, acionou o piloto automático e conduziu o navio para fora do porto.
A viagem começou tranquila. Um casal simples, que nunca havia pisado num iate, olhava tudo em silêncio, maravilhado. Um menino corria pelo convés, encantado com o tamanho do barco. Taças se erguiam, risos se misturavam à música, e os convidados aproveitavam cada detalhe daquela experiência.
Quando o mar se acalmava, alguns passageiros se reuniam na área externa para pescar. Havia também uma piscina, espreguiçadeiras e espaços preparados para que todos pudessem relaxar. A viagem parecia maravilhosa, quase perfeita. O comandante permanecia atento à cabine de comando, acompanhando os instrumentos e verificando o funcionamento dos sistemas, mas, com o piloto automático conduzindo o iate, também podia deixar o ambiente por alguns instantes e participar da recepção com os convidados.
Entre os membros da equipe estava um jovem responsável por auxiliar na observação dos equipamentos e na organização do convés. Em determinado momento, ele percebeu uma pequena luz piscando no painel de navegação. A princípio, ficou olhando por alguns segundos, tentando entender o que significava.
O comandante também notou a piscada, mas não demonstrou preocupação. O piloto automático continuava ligado, o iate seguia estável e todos os indicadores principais pareciam normais. Além disso, aquela embarcação era nova, moderna e cercada de sistemas de segurança. Para ele, não havia motivo para interromper a viagem por causa de uma luz tão discreta.
Ninguém percebeu aquele detalhe. Afinal, quando tudo parece perfeito, quem desconfia da direção?
Horas depois, enquanto a maioria dos passageiros dormia, o piloto automático começou a apresentar uma pane. Um defeito no sistema fez com que ele deixasse de seguir corretamente a rota programada e conduzisse o iate, de maneira lenta e quase imperceptível, para fora do trajeto planejado. Como o comandante acreditava que o equipamento estava funcionando normalmente, a falha não foi identificada a tempo. Sem que ninguém percebesse, a embarcação avançava em direção a uma área militar, marcada nos mapas como zona de conflito. O piloto automático mantinha o curso errado, e a pequena luz que havia piscado no painel era justamente o aviso de que havia um problema no sistema que levava o navio.
Naquela madrugada, os passageiros foram despertados por estrondos distantes. Primeiro, alguns pensaram que fossem trovões. Depois vieram clarões no horizonte, seguidos por estampidos cada vez mais próximos. O iate havia entrado em uma região onde ocorria um confronto militar, levado pela pane do piloto automático, e ninguém a bordo sabia que estava navegando na direção errada.
O primeiro bombardeio atingiu o mar ao lado da embarcação. A explosão levantou uma muralha de água e fez o convés inteiro estremecer. Pessoas saíram dos quartos sem entender o que estava acontecendo. Algumas ainda estavam descalças, outras carregavam crianças nos braços, enquanto vozes desesperadas perguntavam por que estavam sendo atacadas.
Então veio o segundo impacto.
O estrondo rasgou a madrugada. Parte do casco foi destruída, janelas se partiram e uma onda de fogo atravessou os corredores. O iate inclinou-se violentamente, lançando passageiros contra as paredes e espalhando destroços por todos os lados. A música, as taças e os risos da noite anterior desapareceram sob gritos, fumaça e sirenes.
No convés, alguns conseguiram ver os clarões dos bombardeios cortando a escuridão. Outros apenas ouviam os ruídos da caça, o ronco das aeronaves e o som das explosões se aproximando. Ninguém compreendia por que aquilo estava acontecendo. Eles não eram soldados, não carregavam armas e não sabiam que haviam atravessado uma área de guerra.
O casal que antes admirava o luxo do iate procurava desesperadamente uma saída. O menino que corria pelo convés estava agora escondido entre os braços da mãe. Havia empresários, médicos, artistas, autoridades e pessoas comuns, todos reduzidos ao mesmo medo diante da morte. Cada um carregava sonhos, projetos, famílias e planos para o futuro. Em poucos minutos, tudo aquilo parecia prestes a desaparecer.
O comandante tentou recuperar o controle da embarcação, mas os sistemas falhavam um após o outro. A água invadia os compartimentos, o fogo se espalhava e o iate continuava adernando. No meio da confusão, ninguém conseguia distinguir ordens de pedidos de socorro.
Mais uma explosão iluminou o céu.
O navio se partiu com um gemido profundo, como se o próprio casco estivesse cedendo sob o peso da tragédia. Pessoas caíram no mar, outras ficaram presas nos corredores, e algumas morreram sem sequer entender por que haviam sido transformadas em alvo. Naquela madrugada, diante do fogo, da água escura e dos bombardeios, os passageiros descobriram que uma única pane no piloto automático, ignorada no momento certo, podia levar um navio inteiro para a direção errada e separar uma vida inteira da morte.
Algumas pessoas que haviam caído no mar foram capturadas pelos militares responsáveis pelo bombardeio. As que conseguiram ser resgatadas foram interrogadas e identificadas. Só então os militares perceberam que se tratava de uma embarcação turística que havia se desviado da rota e se perdido, entrando por engano naquela zona de conflito. Muitos passageiros, porém, já haviam morrido. A grande maioria não sobreviveu, e apenas alguns conseguiram escapar. Depois de libertados, receberam autorização para retornar aos seus países.
Nenhuma daquelas pessoas poderia imaginar que estava caminhando para uma tragédia, que aquela viagem aparentemente perfeita as conduzia, na verdade, em direção à morte. Pelo contrário: todos acreditavam estar vivendo um dos dias mais felizes e memoráveis de suas vidas, uma experiência majestosa que jamais esqueceriam. Ninguém a bordo poderia imaginar que a rota estava errada, que o iate seguia silenciosamente pelo caminho da morte.
REFLEXÃO
Essa história fala sobre direção. Aquelas pessoas estavam plenamente seguras e firmes de que seguiam na direção correta. Acreditavam estar sendo guiadas por pessoas competentes, quando, na verdade, eram conduzidas por um piloto automático com defeito. Estavam convencidas de que tudo estava sob controle e de que o que lhes aguardava seria algo maravilhoso. Jamais imaginariam que estavam caminhando para uma tragédia, para a morte.
A nossa vida também é um caminhar em uma direção. Ao final das nossas vidas, a direção em que caminhamos determinará o nosso destino eterno, onde passaremos a eternidade. Morrer não é o problema. O problema é morrer caminhando na direção errada, enganado a respeito do piloto de nossas vidas, sem o piloto correto, que é Cristo.
Por isso, precisamos refletir sobre a condução de nossas vidas e sobre quem está conduzindo cada passo que damos. Assim como aqueles passageiros confiavam que o iate estava sendo conduzido corretamente, também podemos acreditar que estamos no caminho certo apenas porque tudo parece tranquilo, seguro e bem organizado. Mas a aparência de segurança não garante que a direção esteja correta. É necessário parar, refletir e examinar a rota. É necessário reconhecer quem está conduzindo a nossa vida e se essa condução nos leva à verdade ou ao engano, à vida ou à morte espiritual.
A reflexão conduz à verdade. A ausência dela conduz ao engano.
Aquela pequena luz piscando no painel não afundou o navio. Ela era um aviso. O problema foi que ninguém parou para examiná-la.
Esta mensagem de Deus nos ensina que também podemos nos enganar quanto à direção em que caminhamos. Podemos nos enganar quanto ao piloto da nossa vida. Podemos viver muitos anos acreditando que estamos no caminho certo, quando, na verdade, estamos sendo conduzidos para um destino completamente diferente daquele que imaginamos.
Se o comandante e a tripulação tivessem interrompido a viagem por alguns minutos para examinar o alerta, reconheceriam que uma máquina pode falhar, que um equipamento pode apresentar defeito e que o ser humano também pode errar. A prudência teria salvado muitas vidas. Mas a confiança excessiva, o orgulho e a certeza de que tudo estava sob controle impediram que revisassem a rota.
É exatamente assim que acontece na vida espiritual.
Há pessoas que nunca examinam a própria vida porque têm certeza absoluta de que estão certas. Confiam na sua bondade, na sua religião, nas suas obras, na sua consciência ou naquilo que sempre aprenderam. O orgulho espiritual impede que parem para refletir, rever os próprios caminhos, admitir a possibilidade de estarem enganadas e aceitar a verdade de Deus.
A Bíblia nos chama a fazer justamente o contrário. Ela nos convida a examinar a nossa vida, a nossa fé e a direção em que estamos caminhando. Quem se recusa a examinar a rota pode descobrir o erro apenas quando chegar ao destino. E, naquele momento, já não haverá mais oportunidade de voltar.
Examinar a pane no piloto automático teria um preço. Poderia interromper a travessia, cancelar a viagem, frustrar os passageiros, desfazer expectativas e transformar um dia de festa em um dia de decepção. Ninguém desejava ouvir que havia um problema. Era muito mais confortável acreditar que tudo estava perfeito.
Assim também acontece conosco.
A exortação de Deus, a correção de Deus e a verdade da Sua Palavra muitas vezes nos mostram uma realidade que não queremos enxergar. Elas confrontam nossos sonhos, nossos desejos, nossas crenças e até a imagem que fazemos de nós mesmos. Isso pode trazer desconforto, desilusão e até tristeza.
Mas o desconforto da verdade é infinitamente melhor do que a falsa tranquilidade do engano.
O fato de a voz de Deus nos contrariar não é motivo para sermos descuidados. Pelo contrário, é justamente quando ela nos alerta que devemos parar, examinar a rota e corrigir o caminho, antes que seja tarde demais.
Não há certeza que não deva ser examinada à luz da Palavra de Deus. Não há doutrina, não há experiência, não há sentimento, não há convicção que esteja acima da Palavra de Deus.
Por quê? Porque a Palavra de Deus é a autoridade suprema. Se a Bíblia está acima de tudo, então ela também está acima das nossas certezas.
O orgulho espiritual diz: “Eu não preciso examinar. Eu já sei. É impossível Jesus não ser o Senhor da minha vida.”
A verdade bíblica diz exatamente o contrário.
«“Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos.” (2 Coríntios 13:5)»
Observe que Deus não manda examinar o vizinho, a igreja ou a religião. Deus manda examinar a si mesmo.
O apóstolo Paulo, usado por Deus para escrever grande parte do Novo Testamento, não ensinou uma fé cega em si mesmo. Ele ensinou que cada pessoa deve colocar a própria vida diante da Palavra de Deus para verificar se realmente está na fé.
Recusar esse exame não é um ato de fé; é um ato de orgulho. Quem diz: “É impossível eu estar enganado”, fecha a porta para a única voz que pode corrigir a rota da sua vida.
Mas há algo ainda mais profundo: não basta examinar a nossa certeza à luz da Palavra de Deus. É preciso estar disposto a aceitar o que a Palavra de Deus revelar. Porque uma pessoa pode abrir a Bíblia e, ainda assim, permanecer fechada para a verdade. Pode ler a correção e rejeitá-la; pode encontrar a verdade e procurar uma maneira de justificá-la; pode perceber que a sua vida não está de acordo com a vontade de Deus e, mesmo assim, preferir conservar aquilo em que sempre acreditou.
Por isso, o verdadeiro exame exige humildade. É preciso dizer diante de Deus: “Senhor, eu posso estar errado. Mostra-me a verdade, ainda que ela contrarie aquilo em que acredito, aquilo que desejo ou aquilo que sempre pensei a meu respeito.”
A pergunta desta mensagem não é se você tem certeza. A pergunta é: a sua certeza suporta o exame da Palavra de Deus?
E mais do que isso: você morreu para o orgulho, para a autoexaltação, e vive exclusivamente para a glória de Deus?
Porque, se você não morreu para o orgulho, ele impedirá que a verdade da Palavra de Deus alcance o seu coração. Você poderá ler a Palavra, ouvir a Palavra, conhecer a Palavra e até falar sobre a Palavra, mas, enquanto o orgulho governar o coração, você poderá rejeitar justamente aquilo que Deus está mostrando a você.
A verdade pode estar diante dos seus olhos, mas o orgulho pode impedi-lo de recebê-la.
E a Bíblia nos apresenta uma advertência ainda mais assustadora: é possível estar absolutamente convencido de que Jesus é o Senhor da sua vida e, ainda assim, estar enganado.
Jesus disse:
«“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21)»
Observe a gravidade dessas palavras. Jesus não está falando de pessoas que nunca ouviram falar dele. Elas o chamam de “Senhor”. Elas estão convencidas de que pertencem a Cristo.
Mas Jesus continua:
«“Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?” (Mateus 7:22)»
E quantas outras coisas podem produzir em uma pessoa a certeza de que ela está no caminho certo?
Adorar a Deus, ser fervoroso, congregar, ler a Bíblia, orar, pregar o Evangelho, louvar, servir a Deus, participar da igreja e ter experiências espirituais.
Essas coisas fazem parte da vida do cristão, porém não determinam que uma pessoa esteja verdadeiramente no caminho, que é Cristo.
E, ainda com a inserção de todas essas coisas em suas vidas, Jesus disse:
«“Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade.” (Mateus 7:23)»
É justamente aqui que precisamos ser extremamente cuidadosos. A questão não é simplesmente aquilo que uma pessoa faz, mas quem ela é diante de Deus.
O centro da questão é o pecado, o orgulho e a submissão verdadeira a Deus.
A morte para o pecado.
«“Nós que morremos para o pecado, como viveremos ainda no pecado?” (Romanos 6:2)»
A morte para o orgulho.
A Escritura mostra o orgulho entrando no coração de Satanás:
«“Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor.” (Ezequiel 28:17)»
O orgulho exalta o próprio eu e conduz à rebelião contra Deus.
Por isso, é necessário morrer para o orgulho, para a autoexaltação e para a própria vontade, vivendo exclusivamente para a glória de Deus:
«“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.” (Romanos 11:36)»
E, juntamente com isso, deve existir um exame contínuo da Palavra de Deus, buscando sempre a correção.
Não basta ter certeza.
É preciso examinar a certeza.
Não basta conhecer a Palavra.
É preciso submeter-se a ela.
Não basta dizer que Jesus é o Senhor. É preciso que a Palavra de Deus confirme, tendo o coração humilde para a correção, morto para o orgulho e para o pecado.
Conclusão
Lembre-se da realidade daquele iate.
A certeza estava presente, mas a verdade não.
Não permita que as suas expectativas, a sua vontade, os seus desejos, a realização pessoal e as glórias que dela possam advir o impeçam de refletir honesta e sinceramente diante da Palavra de Deus.
É a Palavra de Deus que verdadeiramente define quem você é, como você vive e qual é o destino eterno que o aguarda.
Não permita que o iate desta história seja apenas uma história. Permita que ele seja usado por Deus para levá-lo a uma reflexão verdadeira sobre a sua própria vida e sobre quem realmente a conduz.
A força desta reflexão está justamente aqui: um coração morto para o orgulho e para o pecado, uma vida continuamente voltada à correção pela Palavra de Deus, marcada pela humildade, morta para si mesma e para a própria vontade, vivendo exclusivamente para conhecer e fazer a vontade de Deus, dando a Ele toda a glória.
Essa é a condição para que a sua vida esteja verdadeiramente aberta à Palavra de Deus, para que Cristo seja reconhecido como o guia da sua vida e para que Ele lhe dê a direção certa para a vida eterna com Deus.
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